COLCHA DE RETALHOS

 

Tantos eram os seus papéis! Esposa, mãe, sogra, nora, professora, chefe de família, amiga e mentora de todos ali daquele pedaço de mundo.

Um lugar onde a civilização não chegara. Todo seu conhecimento era fruto do seu espirito de observação. Sua sabedoria ocupava seus dias.

De qual lado o Sol nasce? Então era ali que deveriam ser levantadas as paredes com a porta de entrada. Para que pegasse o sol da manhã.

A esposa não queria lavar a roupa do marido? Ela mandava chamar um, depois o outro, e nos dias seguintes ouviam- se os risos do casal harmonizado. A chama do sexo fora reacendido, com as palavras certas ditas por ela ao marido e à mulher.

Criança teimosa? Adolescente preguiçoso? Mulher brigando com sogra, marido não respeitando os dias férteis da esposa já cheia de filhos?  Ela era a grande mãe daquela comunidade. Ensinava as mulheres jovens a cozinhar, admoestava as idosas para não fomentar discórdia com as noras.

Dava aulas de asseio para meninas na puberdade, mandava ensinar a profissão eterna naquele lugar aos meninos. Arar, plantar, conhecer sementes, manejar a terra.

Se percebesse  dois rapazes olhando para a mesma moça, o seu papel era sondar para qual deveria direcionar a donzela e formalizar o compromisso. Determinado dia, haveria na capelinha do local os casamentos comunitários. 

Em seu papel de mulher, cumpria o que era esperado. O seu casamento fora combinado como de costume. Mas a diferença entre ela e o marido era abissal. Sendo assim, ela teve os quatro filhos homens e seguia ainda cumprindo com o papel de mulher sem jamais ter amado seu marido. Este, por sua vez, tinha um apetite voraz por ela. A enchia de perguntas depois do coito., Nao bastasse despir-lhe o corpo, queria desnudar sua alma. Jamais conseguiu.

— Que há no mundo além deste vilarejo? – Ela se perguntava entre o entardecer e a noite, nos seus momentos de descanso.

Logo sua mente voltava para as questões práticas.

– Quando virá algum presbítero para substituir D. Gregório?

– Estamos ha seis meses sem uma celebração profunda. Não devemos deixar as pessoas sem o alimento da alma, refletia. Em sua função de esposa do dono das terras, mandava limpar a capela, tocar o sino aos domingos e ela mesma fazia uma leitura da Palavra e ao seu modo a transmitia a todos os que moravam em suas terras.

Mesmo com tantos afazeres ela sentia falta de uma conversa mais profunda, queria ter com quem trocar idéias e não apenas falar, administrar, corrigir.

Ela era visitada. As mulheres simples da comunidade vinham lhe pedir conselhos, trazer queixas. Mas ela não tinha onde ir. Existia como um abismo respeitoso em relação a sua pessoa. Mulheres riam em seus afazeres, andavam em duplas, a vida apesar do inverno, das dificuldades, de tudo que levavam ao seu conhecimento naquela relação de subalternas, não as faziam tristes ou desanimadas. Ela sentia ser diferente.

Sua sede não era de água. Sua sede era do tamanho do mundo, do que havia no mundo. Os anos passando e só um objetivo traçado. Quando completasse 40 anos, procuraria uma boa moça para tomar como a segunda esposa de seu marido. Eram os costumes. E ultimamente ela vivia para alcançar esse dia.

Ela sentia que deveria tentar fazer mais do que se conformar . Queria se aprofundar em leituras, queria aprender técnicas novas de irrigação, conseguir um método mais moderno de cuidar da terra.

Seu corpo descansaria daquela submissão carnal ao casamento. E nem lhe passava pela cabeça que talvez o seu vazio não fosse de livros, e sim a falta do amor, da paixão, de sentimentos não conhecidos por ela, mas intuídos.

Todas as mulheres do mundo têm um pouco dela dentro de si.

Ou não são amadas como sentem que é o amor ou têm responsabilidades acima de suas forças em manter o casamento, a família.

Ou obedecem ou são julgadas. O que fazer? Falar. Escrever. Sonhar. A cada dia as suas aflições, diz a Palavra.

A mulher tem em si vários universos. É como uma colcha de retalhos. Uma linda, amorosa e colorida colcha de retalhos!

Publicado por blogdadivinablog

Me autodenominei Divina, Perfeita e Maravilhosa. Não é por vaidade e sim porque acredito que foi assim que Deus nos criou: à sua imagem e semelhança. Mesmo que humanamente isso pareça impossível, ao expressar minha crença me sinto bem. Busco o melhor sempre. Tenho fases, sou de Libra e isso ajuda a explicar minhas qualidades e meus defeitos. Amo a vida, minha família, meus amigos. Estudei bastante, sempre gostei de ler, li romances, documentários, biografias...mas minha maior bagagem é de vida, pois sou intensa. Amo muito, preocupo-me muito, erro muito, e procuro muito acertar! Vou dividir com vcs um pouco da minha experiência de vida, neste espaço que considero meu "travesseiro virtual" e o convido a compartilhá-lo comigo. Venha?! Criei este blog em agosto de 2010 na plataforma blogspot. Posteriormente o trouxe para o WordPress . Agora em 2021 estou agregando-o ao meu site asdivinas.com.br

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