O Peralta

Peralta ( Crônica)

Quando ele chegou era daqueles que não escondiam a origem. Nunca nos enganou. Quando falo assim no plural é por força de expressão, porque eu mesma não me envolvia com essa área. Não tinha tempo, nem interesse e nem paciência.

Mas não havia como ignorá-lo.

Era muito intrometido, andava pela casa toda sem a menor cerimônia, até quando se cansava e ia tirar o seu plácido cochilo.

Devo confessar que essa época foi um período muito difícil para mim. A casa cheia. A sala de jantar, que ficava estrategicamente posicionada, não me deixava escapar das exigências de todos. Se eu viesse pela sala me pegariam lá; se eu saísse do quarto, idem, ao sair da cozinha, também. E ele por ali, circulando livremente! Óbvio que eu o culpava por quase tudo! O marido, os quatro filhos, os dois netos, a empregada e ele. Todos tinham suas necessidades. E só eu era a mãe. Sim, porque todos esperam que a mãe seja onipotente, onipresente, com um estoque infindável de soluções para toda a espécie de problemas ou necessidades.

Enfim! Ele foi crescendo e tento me lembrar das várias etapas desse crescimento, mas sinceramente, não consigo. Tadinho.

Vejam vocês a minha falta de atenção.

Lembro-me de que, às vezes, o alvoroço familiar era tanto, que eu me escondia, ou me fingia de ocupada lá para os fundos. Lá pelo menos havia um cheirinho bom de uma árvore guerreira. Era um pé de canela. E era guerreira, porque sendo grande, a cortavam, coitada. Deixavam só o tronco. Quinze dias depois estavam lá as cheirosas folhinhas verdes. Ela era persistente. E me acalmava.

Ao sair ao quintal, vinha o cheiro bom da canela.

Já a casa por mais que fosse faxinada, nunca parecia limpa, não absorvia o cheiro de limpeza, de alfazema, lavandas, nada. 

Eram tantas diferenças de ladrilhos, de pinturas e remendos, que nada a melhorava.

Vejam vocês quantas lembranças eu tenho!

Mas do crescimento dele não me lembro. Só do tamanho que ficou. Enorme! Incrivelmente alto. Pernalta mesmo! Ele reinava ali na frente da casa, junto aos netos e ao avô deles. Se achava o quinto filho ou o terceiro neto.

Nessa ocasião compramos nosso primeiro carro zero quilômetro. Eu ainda não era segura ao volante, mas naquela manhã eu me aventurei a dirigir o carro novinho em folha de cor vermelha. Até que olhei pelo retrovisor e lá vinha ele correndo, de língua de fora, bem ao lado da porta do carona. Quase morri de vergonha! Que boba que eu era!

Bom, se ele se achava no direito de seguir o carro da família, e não conseguiam segurá-lo, ele se achava no direito de sair correndo atrás de quem quer que passasse sobre rodas em nossa rua.

E nesse vuco-vuco misturado a minha distração, ninguém o corrigiu. E ele só na diversão dele.

Um dia, ao chegar do expediente, notei algo diferente. Olhei o quadro que me era familiar e percebi a tristeza que tomava conta de todos.

Eu gelei ao olhar a cena e conferir mentalmente quem estava faltando. O vazio e o silêncio que reinava naquele pedaço de calçada, outrora tão movimentado, tinha um motivo. 

Só aí eu me dei conta que tanto eu, quanto ele, nos amávamos. 

Aquela mania de querer deitar-se embaixo da cadeira que eu ocupava, o olhar caramelo me acompanhando quando eu saía de casa, a malemolência ao me acompanhar quando eu saía a caminhar… 

Ao nosso jeito meio torto, existia amor entre nós!

Já era tarde.

“Nosso cachorro preto”, pernalta e peralta, chamado Mussum havia sido morto!

Alguém se incomodou com a peraltice dele correr atrás de ciclistas ou distraídos que passavam por nossa calçada. Deram-lhe veneno.

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Publicado por blogdadivinablog

Me autodenominei Divina, Perfeita e Maravilhosa. Não é por vaidade e sim porque acredito que foi assim que Deus nos criou: à sua imagem e semelhança. Mesmo que humanamente isso pareça impossível, ao expressar minha crença me sinto bem. Busco o melhor sempre. Tenho fases, sou de Libra e isso ajuda a explicar minhas qualidades e meus defeitos. Amo a vida, minha família, meus amigos. Estudei bastante, sempre gostei de ler, li romances, documentários, biografias...mas minha maior bagagem é de vida, pois sou intensa. Amo muito, preocupo-me muito, erro muito, e procuro muito acertar! Vou dividir com vcs um pouco da minha experiência de vida, neste espaço que considero meu "travesseiro virtual" e o convido a compartilhá-lo comigo. Venha?! Criei este blog em agosto de 2010 na plataforma blogspot. Posteriormente o trouxe para o WordPress . Agora em 2021 estou agregando-o ao meu site asdivinas.com.br

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