Identidade

Inscrevi-me num curso preparatório para a aposentadoria e durante o curso percebi o quanto eu não estava preparada, o quanto não tinha pensado no que faria  com meus dias livres, e como minha identidade era muito mais profissional que pessoal.  A partir daí, em agosto de 2010 passei a trabalhar com esse tema, pois escrevendo, penso…pensando, reflito…refletindo, assimilo…e ao fim, enxergo todas as benesses ou dificuldades que eu e muitas outras pessoas encontrarão ao se aposentar. 
Observem que aqui não há só o trabalho de escrever , há emoções, sentimentos, pois, desnudei minha alma, revivi minha história, me emocionei e emocionei pessoas ao recordar em como cheguei a essa etapa da minha vida. 
Vou postar aqui essas observações e espero que possam ser úteis para alguém, como foi para mim.

INICIO, MEIO E FINAL DA MINHA VIDA PROFISSIONAL, OU COMO TUDO COMEÇOU!

Em 1977 o governo federal decretou a divisão do Estado de Mato Grosso, formando então Mato Grosso e Mato Grosso do Sul devido a “dificuldade em desenvolver a região diante da grande extensão e diversidade”. Pois bem, ao iniciar o ano de 1978 mudei-me para  Campo Grande, uma jovem dona-de-casa com quatro filhos pequenos, nascida em Bela Vista, criada em  Jardim, e que vem  para perto de seus pais e irmãos que aqui já estavam estabelecidos, pois havia uma  enorme  expectativa de progresso com a implantação do novo Estado.
Eu  havia me casado cedo e nunca havia trabalhado, mas tinha o “curso ginasial” completo e sempre fui ávida em ler e saber tudo o que se esperava em relação ao grandioso futuro que se desenhava num horizonte bem próximo. Em razão disso, (e de uma certa blusa cacharel, cuja história contarei um dia) fui me preparar  para entrar no mercado de trabalho, fazendo os diversos cursos profissionalizantes que era oferecido pelo SENAC – SERVIÇO NACIONAL DO COMÉRCIO, que situava-se à Rua Pedro Celestino, entre Afonso Pena e Quinze de Novembro.
No dia 1º de janeiro de 1979  instalou-se efetivamente o governo do Estado de Mato Grosso do Sul, e foi nomeado pelo Presidente Ernesto Geisel o Dr.Harry Amorim Costa para ser o primeiro governador do Estado de MS

TRABALHO

As oportunidades começaram a surgir, e como decidira  tomar a rédea da minha vida através do trabalho, fiquei atenta e quando foi noticiado que iria haver uma Seleção Simplificada de Pessoal para trabalhar no governo que se iniciava, corri e me inscrevia! Eu tinha cursado só o primeiro grau completo, mas era ótima em contas, percentagens, razão, proporção, essas coisas básicas da matemática e era boa em Português também, por isso nem de longe imaginei o que vinha pela frente…
A seleção era da  Secretaria de Segurança Pública, para o quadro de pessoal que trabalharia na antiga CIRETRAN,  que, com a divisão do Estado passou a ser DETRAN, nessa época um departamento da Secretaria de Segurança Pública que mais tarde passou a ter personalidade jurídica própria ao tornar-se uma  AUTARQUIA.
Bom, chegou o dia da realização do “concurso” e lá fui eu, lápis preto bem apontadinho, borracha macia, caneta azul, e muita, mas muita vontade mesmo de ser uma das aprovadas.
Quem se lembra duma lápide que havia numa rua perto da antiga rodoviária, onde pessoas iam rezar  acender velas e pedir uma graça? Eu ouvira em algum lugar ser de uma menina que havia sido morta naquele local e se tornara uma SANTINHA  e que era protetora dos estudantes, por isso desci até lá e rezei fervorosamente pedindo que me agraciasse com as respostas certas para as questões do concurso.
Como eu já disse, eu me garantia nas matérias de português e matemática, mas quando li as  perguntas específicas, eu não tinha  a menor noção sobre via preferencial, velocidade permitida, infrações de trânsito, enfim, uma vez que sequer sonhara um dia em tirar Carteira de Habilitação, o que pelo menos me daria respostas às questões  elementares sobre legislação de trânsito e por isso, só posso dizer que certamente a Santa Carminha deu sua cota de graças !
Era março de 1979 e o Correio do Estado (ou Diário da Serra?) trazia a manchete sobre o  primeiro “concurso público” do novo Estado e lá estava  meu nome e minha classificação: passei em 19 ° lugar.
Certamente que a divisão do Estado tem seus  registros históricos, e para muitos  pode ter  outras  conotações, mas para mim as lembranças estão misturadas com minha história pessoal, e as recordações têm um doce gosto de vitória.
Fomos chamados para colocar em ordem o novo local de trabalho, um enorme salão, na esquina da Avenida Tamandaré com a Rua D.Pedro II que estava sendo preparado, com colocação de divisórias, parte elétrica, vidros, guichês, e toda infra-estrutura necessária para que o  Departamento funcionasse. Era imprescindível que ao abrir as portas tudo estivesse nos seus devidos lugares e quando me refiro a tudo, refiro-me principalmente ao que viria a ser minha ocupação nos próximos dias: os documentos ou  prontuários dos condutores de veículos foram despachados  de Cuiabá, em infindáveis caixas de papelão, onde estava etiquetado o nome do município que passara a ser do MS e deveriam ser organizados, para serem colocados nos novos arquivos que estavam sendo montados. Bom, sem mesas e nem cadeiras para sentarmos, um colega muito criativo, o  Rubens ( também era cantor e violeiro), deu uma volta em todo o prédio  e veio com a solução: duas pilhas de tijolos e uma tábua, que se tornou ao mesmo tempo, nossa mesa e cadeira, pois nos “acavalávamos” sobre a tábua com uma caixa na frente e outra no chão e separávamos os documentos em ordem alfabética e por município. Foram dias e dias nesse trabalho em  cujo final estávamos com as costas em frangalhos, mas sem perder a garra e a alegria de fazer parte desse momento histórico e feliz por estarmos trabalhando!
Além disso, havia as surpresas: Olha! È o prontuário do Glauber Rocha! Ou, este não é daquele ator da Rede Globo, o Rubens Correa? Quem achar o do Nei Matogrosso avisa, viu? Mas o nome dele é esse mesmo? E por aí afora…
No Departamento Estadual de Trânsito  iniciei  meus anos de trabalho, como servidora pública do Estado de MS e tive o primeiro registro em minha Carteira de Trabalho novinha em folha, pela Secretaria de Segurança Pública.
Trabalhei oficialmente de 16 de abril de 1979 a junho de 1982 e claro, aprendi muito sobre legislação de trânsito, tomei consciência de que deveria continuar os estudos, passei a  entender  os meandros do poder  público, as nomeações políticas, a troca de chefias e coisas do tipo.
Foi assim que ampliei a minha visão e passei a querer novos horizontes, uma vez que muitos dos colegas com quem eu trabalhara  já haviam saído para trabalhar em outros lugares. Em outubro de 1981 foi criada a Portaria  248, e todos os funcionários que eram celetistas   passaram  a ser do quadro provisório do Estado, o que gerou um desconforto, pois aí sim, ficava bem claro, que não havia estabilidade, como o próprio nome dizia.
Bom, meus  novos horizontes  vieram de uma  forma  inesperada em junho de 1982 e assim iniciou-se o meu segundo “tempo de serviço”…

TRABALHO PARTE 2

Recomecei meus estudos em 1980 no Colégio Mace onde eram oferecidos cursos técnicos profissionalizantes ao fim do qual eu teria o 2º grau ou ensino médio e o passaporte para a faculdade. Em janeiro de 1982 comecei a cursar o curso de Administração na Universidade federal de MS com uma pontinha de resignação por ter que abrir mão de cursar Direito na Fucmat, uma vez que também passei nesse vestibular, mas não tinha condições de pagar o curso.
Não era e nem hoje  quero ser uma fanática por  política partidária, mas impossível não notar que nos   primeiros anos do novo Estado houve certo  “readequamento” das forças políticas, ou o mais correto seria dizer uma “queda de braço”, o que trazia mudanças no comando e na forma de trabalho. Em meados de 1982 houve mais um desses troca-trocas e resolvi sair de férias, certamente desgostosa com algo ou alguém, e graças a uma ótima memória seletiva que eu tenho em  esquecer coisas ruins, hoje nem me lembro ao certo o que era!
Esse era o contexto geral quando fui indicada para o que viria a ser meu 2° tempo de serviço, que ocorreu de uma forma muito interessante.
Os órgãos públicos estavam se instalando e os concursos aconteciam: Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal, Tribunal de Contas, Tribunal de Justiça e até um antigo concurso realizado pelo DASP (um órgão responsável pelo serviço público federal) passou a chamar os classificados, entre os quais eu me incluía,  para trabalhar nos órgãos ou delegacias federais que passaram a se instalar na nova capital – Campo Grande.
Como o chamado do DASP não era interessante  pedi para colocar meu nome no fim da lista. Quanto ao concurso do TJ/MS, minha classificação não foi suficiente para ser nomeada e  me despedi de uns oito ou nove colegas do DETRAN que ficaram melhores
pontuados  e foram trabalhar  naquele poder. No Banco do Brasil  não passei e vi mais colegas saindo para  tomar posse e assim foi acontecendo, com despedidas, alegrias e esperanças.
Venceu o prazo de validade do concurso  TJ/MS  e como havia necessidade  de mais funcionários, a Diretoria teve a idéia de ir buscá-los na lista dos aprovados e não nomeados, e para tanto passou uma cópia dessa lista para que os colegas indicassem alguma pessoa conhecida e que atendesse aos padrões  por eles  exigidos.
Tcham…tcham…tcham! Meu nome teve oito ou nove indicações!
Fui localizada e marquei entrevista com a Diretora Geral do TJ/MS que me explicou gentilmente que não haveria  estabilidade, pois a  contratação era pela Lei 274, uma vez que o concurso  não tinha mais validade e que já havia outro concurso em andamento, etc…Não tive dúvidas mesmo assim, pois o salário era o triplo do que eu ganhava e agarrei com unhas e dentes a oportunidade de trabalhar no Poder Judiciário, onde fiquei de  junho de 1982 a dezembro de 1985, sendo que fiquei pela Lei 274 apenas 2 meses, pois em agosto de 1982 passei para o cargo de Auxiliar Judiciário e posteriormente passei como Técnico Judiciário. O que tenho a dizer desse período é que aprendi muito sobre organização, hierarquia, pontualidade e  foi com muita dúvida que saí de lá para meu 3. tempo de serviço: Aqui, onde estou agora me preparando para aposentadoria!

TRABALHO PARTE 3

O Estado ainda estava se organizando, criando concursos para servidores das diversas áreas e em 1985 houve o concurso para a SECRETARIA DE ESTADO DE FAZENDA, ÁREA DE FISCALIZAÇÃO.
Passei nesse concurso e tomei posse em 04 de dezembro de 1985. Em razão da minha formação em administração pública e do trabalho na área financeira e contábil que exerci no Tribunal de Justiça de MS, fui lotada na Contabilidade Geral do Estado. Nesse setor trabalhei de 04/12/1985 até 20/04/2011 data em que me aposentei. O que posso falar desse tempo? Que foi minha vida, meu ar, minha escola! Tanto que após oito meses apenas de aposentadoria, aqui estou eu novamente trabalhando na mesma área no Tribunal de Contas de MS. Ao parar de trabalhar precisei  me analisar e entender o que se passava em  minha mente,  uma vez que meu nome, minha referencia , meu local de trabalho,  onde fui todos os dias por trinta e cinco anos passaram a não existir mais e , ao  ficar em casa durante a semana percebi que uma nova pessoa passou a existir.
Nova para mim mesma, nova para minha empregada, pois quando eu saia de casa para trabalhar ela passava a ser a dona daquele espaço. E agora somos duas a ocupar o mesmo papel. Tenho um post em que abordo essa questão.
Quanto a mim estou bem comigo mesma. Aposentada do trabalho obrigatório, mas atuando com amor e leveza neste novo trabalho, pelo tempo que eu decidir. Hoje, sei que estou preparada para parar, sei que terei sempre boas lembranças da minha rotina, sei que fiz grandes amigos que levo para a vida toda e que sou eu, MARIA ELZA , a pessoa, e não a Maria Elza da Contabilidade Geral do Estado.

O IMPULSO PARA A MUDANÇA OU A BLUSA CACHARREL

Todos da casa, minhas irmãs, meu pai, meus irmãos trabalhavam. Eu ficava em casa e ajudava nas tarefas domésticas. A vida era escassa, mas com 25 anos e ainda inexperiente ou inocente, sei lá, eu via os dias correrem e apenas me ocupava com meus filhos. Minhas irmãs eram bem arrumadas, pois saiam para trabalhar, uma em escritório, outra em loja, outra era costureira duma “maison, onde entendia de moda, etc…
Com a vida que eu levava, não existia roupa nova para mim, apenas reaproveitadas. Pois bem, num dia qualquer houve uma liquidação numa loja grande do centro e minha irmã mais velha se arrumou e correu para a tal loja, ver o que tinha para ser comprado. Era uma liquidação pós inverno dos anos 70, onde esteve no auge da moda as blusas cacharrel, que ainda hoje pode -se ver nas revistas de moda que revivem esses anos.
E estavam super baratas por isso minha irmã comprou várias, umas oito ou dez blusas, de todas as cores e chegou radiante com sua sacola de blusas, e minha mãe e eu, e as outras irmãs a rodeamos para ver as peças. Ela foi passando um para fulana, outra para sicrana, essa para mim, e de novo, e as cores bonitas iam saindo… ai Meu Deus já foi a amarela, talvez seja a vermelha, e nada, já estava até me conformando com a preta ( que detesto), quando acabou as blusas e não ganhei nenhuma.
Um nó subiu a minha garganta e ao tentar engoli-lo senti que as lágrimas me chegavam aos olhos, disfarcei, saí de perto e um calor me subiu ao rosto, um calor misto de vergonha misturada com uma certeza: NÃO, EU NÃO DEVO CHORAR! EU TENHO PERNAS, EU TENHO BRAÇOS, EU TENHO CAPACIDADE! EU DEVO SER CAPAZ DE TRABALHAR E COMPRAR AS ROUPAS E O QUE MAIS EU QUISER, PARA MIM! Nesse dia minha vida mudou!
Bendita blusa cacharrel!

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